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Toda bolha começa do mesmo jeito.
Não com fraude. Não com má-fé. Mas com uma boa história.
Uma história nova, elegante, difícil de entender por completo e fácil de repetir em manchetes. Uma história que promete reorganizar o mundo, acelerar o progresso, redefinir trabalho, riqueza, poder. Uma história que, aos poucos, deixa de ser questionada e passa a ser presumida.
A inteligência artificial virou essa história.
Nos últimos anos, a IA deixou de ser ferramenta experimental para se tornar narrativa dominante. Tudo agora é “movido por IA”. Toda startup tem IA. Toda apresentação de investidores tem gráficos ascendentes, curvas suaves, previsões grandiosas. E, no centro disso tudo, um fenômeno que começa a incomodar até quem costuma se empolgar fácil: avaliações bilionárias sem lucro algum.
Em outubro, o Financial Times trouxe um dado difícil de ignorar. Dez startups de IA, nenhuma delas com um único dólar de lucro consistente, acumularam quase um trilhão de dólares em valor de mercado em apenas 12 meses. Um trilhão. Com fluxo de caixa negativo, modelos de negócio ainda em mutação e dependência pesada de capital externo.
Para usar um termo técnico: isso é uma loucura.
Quando o futuro é precificado antes de existir
A promessa da IA é real. Ninguém sério nega isso. Ela já transforma setores inteiros, aumenta produtividade, automatiza tarefas cognitivas e cria capacidades que, há pouco tempo, pareceriam ficção científica.
O problema não é a tecnologia.
O problema é o timing da expectativa.
Bolhas não nascem porque algo é inútil. Elas nascem porque algo útil passa a ser precificado como se já tivesse resolvido todos os seus próprios problemas.
Hoje, grande parte do valor atribuído às empresas de IA não vem do que elas entregam, mas do que talvez entreguem. Escala perfeita, custos em queda, margens futuras, domínio de mercado, barreiras competitivas quase míticas. Tudo isso é projetado para frente como se fosse inevitável.
O futuro vira ativo financeiro.
E ativo financeiro, quando inflado demais, estoura.

O eco desconfortável dos anos 1990
Analistas de Wall Street e jornalistas especializados começaram a fazer comparações que ninguém gosta de ouvir: o final dos anos 1990. A bolha da internet. Empresas com “.com” no nome, valuations absurdos, pouco lucro, muito PowerPoint.
Na época, diziam exatamente a mesma coisa que se diz hoje:
“É diferente agora.”
“A tecnologia é real.”
“O mundo mudou.”
E era verdade. A internet era real. Mudou tudo. Só não justificava os preços pagos por promessas que ainda não tinham chão.
A bolha estourou. Muitas empresas desapareceram. Outras poucas sobreviveram e, ironicamente, acabaram valendo muito mais depois, quando passaram a gerar lucro de verdade.
A história não se repete perfeitamente, mas ela rima. E a rima atual é incômoda.
A resposta da indústria: dar de ombros
O mais curioso é a reação do próprio setor de IA. Em vez de desacelerar, revisar expectativas ou ajustar narrativas, a resposta tem sido um silêncio elegante. Um dar de ombros coletivo.
Enquanto o ceticismo cresce, as avaliações continuam subindo. Rodadas bilionárias se fecham. Executivos evitam perguntas difíceis. O discurso muda de “produto” para “plataforma”, de “solução” para “ecossistema”, de “uso real” para “potencial sistêmico”.
É o momento clássico em que a história começa a se sustentar sozinha, sem precisar mais de provas concretas. E isso, historicamente, nunca termina bem.
Custos invisíveis e lucros adiados
Existe um detalhe técnico que costuma ficar fora das manchetes: o custo real da IA.
Treinar, manter e escalar modelos avançados é caro. Muito caro. Infraestrutura, energia, chips especializados, engenheiros escassos, dependência de fornecedores específicos. Margens que parecem promissoras no papel encolhem quando confrontadas com a realidade operacional.
Muitas empresas de IA hoje não vendem um produto acabado. Vendem acesso subsidiado. Vendem crescimento. Vendem presença. O lucro fica sempre logo ali, depois da próxima rodada, do próximo avanço, da próxima otimização.
O problema é que o “logo ali” começa a se afastar.
Quando o mercado confunde avanço com sustentabilidade
Outro erro comum em bolhas tecnológicas é confundir progresso técnico com modelo de negócio viável. Uma coisa não garante a outra.
Um modelo pode ser impressionante, preciso, veloz, elegante… e ainda assim não sustentar uma empresa lucrativa no longo prazo. Pode gerar valor social sem gerar valor financeiro proporcional. Pode beneficiar usuários enquanto consome capital de investidores.
O mercado, empolgado, costuma ignorar essa distinção. Até que ela cobra a conta.
Enquanto muita “inteligência artificial” vende promessa, algumas aplicações já entregam algo simples e real: tempo devolvido.
A psicologia coletiva por trás da bolha
Bolhas não são fenômenos apenas econômicos. São psicológicos.
Existe medo de ficar de fora. Existe pressão por exposição. Existe a sensação de que “todo mundo já entendeu algo que eu ainda não entendi”. Isso empurra investidores, empresas e até consumidores para decisões apressadas.
A IA, com sua aura técnica e linguagem complexa, amplifica esse efeito. Pouca gente entende profundamente como tudo funciona. Isso cria um ambiente perfeito para narrativas dominarem os fatos.
Quando ninguém quer parecer o único cético da sala, o ceticismo some.
Enquanto muita “inteligência artificial” vende promessa, algumas aplicações já entregam algo simples e real: tempo devolvido.
Automação de verdade não faz barulho
Não pede atenção e não promete revolução. Ela só trabalha enquanto você vive. Um robô aspirador eficiente faz exatamente isso: limpa, varre, passa pano e desaparece do seu dia.
No meio de tanta IA inflada, é curioso como o que realmente funciona costuma ser silencioso.
Às vezes, o avanço não é pensar mais.
É não precisar pensar nisso.

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O que acontece quando a bolha estoura?
Aqui vale um esclarecimento importante:
Se a bolha da IA estourar, a IA não desaparece.
O que desaparece é o excesso. As empresas frágeis. As promessas vazias. Os valuations irreais. O dinheiro fácil.
Sobra o que é estrutural. O que resolve problemas reais. O que consegue gerar receita consistente. O que sobrevive sem subsídio eterno.
Foi assim com a internet. Será assim com a IA.
O perigo real não é o colapso, é o atraso
Existe um efeito colateral pouco comentado: bolhas atrasam o progresso saudável. Quando tudo vira hype, soluções sólidas são ignoradas. Quando o dinheiro vai para narrativas, não vai para eficiência. Quando o foco está no valuation, não está no usuário.
O colapso de expectativas, quando vem, gera desconfiança generalizada. Investimentos secam. Projetos bons sofrem junto com os ruins. O pêndulo vai do entusiasmo cego para o ceticismo exagerado.
E quem paga o preço é o desenvolvimento real.
O sinal de maturidade que poucos querem dar
Um setor maduro aprende a lidar com limites. A reconhecer gargalos. A falar de custos, não só de ganhos. A aceitar que nem tudo escala como prometido.
Hoje, a indústria de IA ainda parece jovem demais para isso. Ou confiante demais. Talvez as duas coisas.
O sinal de que a bolha está perto do topo não é o pessimismo. É o excesso de tranquilidade diante de alertas claros.
O futuro não some, ele se reorganiza
A IA vai continuar transformando o mundo. Mas provavelmente de um jeito menos glamouroso, menos explosivo e mais lento do que o discurso atual sugere.
Menos unicórnios instantâneos.
Mais integração silenciosa.
Menos manchete.
Mais infraestrutura.
E isso, ironicamente, é uma ótima notícia. Porque o progresso real raramente acontece no ritmo das promessas infladas.
A pergunta não é se existe uma bolha da IA.
A pergunta é quanto dela é excesso… e quanto é futuro legítimo sendo precificado cedo demais.
A história sugere que o mercado só descobre essa resposta depois do estouro.
Helena Falcão
Pesquisadora independente de economia digital e transformações do trabalho.
Analisa como a inteligência artificial está reorganizando renda, produção e oportunidades no mundo real.
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