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Segunda-feira, 22 de dezembro de 2025. Economia.
Abri o WhatsApp sem expectativa nenhuma.
Entre mensagens e grupos barulhentos, apareceu mais uma daquelas correntes indignadas: gente discutindo política por causa de uma propaganda das Havaianas. Acusação, defesa, rótulos rápidos. Em poucos segundos, o assunto já não era mais sandália, sim país, ideologia, caráter.
Fechei o aplicativo com a sensação conhecida de fim de ano: tudo parece importante demais e irrelevante ao mesmo tempo. Como se o mundo estivesse em pausa simbólica, mas continuasse rodando no automático. Nada ali precisava ser provado. Bastava estar ali, acontecendo.
Dezembro funciona como uma dobra no tempo.
As pessoas continuam trabalhando, pagando contas, vivendo, mas algo muda no pano de fundo. A noção de consequência fica mais elástica. O futuro parece distante o suficiente para ser adiado. O presente, cansado o bastante para pedir trégua.
Economicamente, o último trimestre concentra mais circulação de dinheiro. Há renda extra, há férias, há pagamentos represados. O varejo cresce. Isso aparece ano após ano nas pesquisas do IBGE sobre comércio. Nada surpreendente aqui.
O que vai mudando é a parte criteriosa de quem consome.
Consumo não como excesso, mas como linguagem
Existe uma leitura moralizante do consumo que costuma atrapalhar mais do que esclarecer. Ela trata gastar como falha de caráter ou falta de consciência. Essa leitura ignora algo básico: consumo também é comunicação.
As pessoas consomem para marcar tempo, para sinalizar pertencimento, para aliviar tensões acumuladas. Festas fazem isso há milênios. O fim do ano só concentra o fenômeno.
Não há nada de errado nisso.
O ponto relevante não é o ato de consumir, mas o ambiente em que ele acontece hoje. Um ambiente altamente organizado, previsível, desenhado para reduzir atrito e distribuir decisões ao longo do tempo.
Crédito, parcelamento, ofertas antecipadas. Nada disso obriga ninguém. Mas tudo isso orienta.
O crédito como organizador do cotidiano
O crédito moderno não é um vilão oculto. Ele é uma tecnologia social. Serve para suavizar fluxos, permitir acesso, organizar o tempo econômico.
Quando alguém parcela uma decisão, está dizendo algo simples: prefiro diluir esse impacto. Isso é racional dentro de certos limites.
O que costuma passar despercebido é que o sistema inteiro opera esperando esse comportamento. Dezembro absorve. Janeiro consolida.
Relatórios do Banco Central mostram esse movimento com clareza ao longo dos anos. O uso do crédito cresce no fim do ano. O ajuste aparece depois. Não como punição, mas como fase seguinte.
Janeiro não cria nada novo.
Ele apenas tira o pano de fundo festivo.
Janeiro: Castigo ou espelho?
Janeiro tem fama de ingrato porque ele devolve a realidade sem embalagem. As despesas fixas reaparecem. Os compromissos assumidos começam a ocupar espaço no orçamento. O discurso do “depois eu vejo” encontra seu limite natural.
É comum associar isso a erro, descontrole ou imprudência. Essa leitura é pobre.
Pesquisas sobre inadimplência mostram algo mais interessante. Em muitos casos, não há queda abrupta de renda. Há descompasso de fluxo. A vida segue, mas agora sem exceção simbólica.
Janeiro é menos um problema e mais um diagnóstico.
Onde o debate costuma erra
É nesse ponto que muita análise escorrega para o lugar errado. Tenta transformar um processo estrutural em falha individual ou, no extremo oposto, em conspiração sistêmica.
Nenhuma das duas coisas explica bem o fenômeno.
Há um ponto em que o debate público costuma perder precisão. É quando se tenta atribuir às eleições um peso que, na prática, já foi redistribuído para outros lugares. Isso não diminui a importância do voto. Apenas reconhece que ele deixou de ser o único eixo decisório relevante.
Eleições organizam direções.
O cotidiano organiza resultados.
Essa diferença parece sutil, mas muda tudo. Em sociedades complexas, decisões estruturais raramente acontecem em momentos únicos. Elas se acumulam. Escorrem. Se repetem até virar padrão. O século XXI funciona mais como um processo contínuo do que como uma sequência de viradas dramáticas.
A política ainda define o mapa.
Mas é a economia cotidiana que define por onde as pessoas realmente andam.
O deslocamento silencioso do poder
Durante muito tempo, o poder foi associado a lugares visíveis. Parlamentos, palácios, cargos, discursos. Isso fazia sentido quando as principais decisões estavam concentradas em poucos pontos de controle.
Hoje, o poder se diluiu. Não desapareceu. Mudou de forma.
Ele está no desenho do crédito.
Na facilidade de adiar decisões.
Na repetição automática de hábitos.
Na previsibilidade estatística de milhões de pessoas fazendo escolhas parecidas em contextos parecidos.
Nada disso aparece no horário eleitoral.
O curioso é que essa forma de poder é menos opressiva e mais confortável. Ela não exige obediência explícita. Só pede continuidade. Um mês depois do outro. Uma parcela depois da outra. Um ajuste pequeno depois do outro.

Encontrei no Mercado Livre essas sandálias que estão livres de qualquer polêmica:
https://mercadolivre.com/sec/2bRwwBo
O século XXI se decide menos em grandes discursos
e mais nas escolhas comuns do dia a dia.
Algumas não mudam o mundo,
mas tornam o cotidiano mais leve.
A conciliação que quase ninguém percebe
Existe uma tentação permanente de transformar essa leitura em confronto. Ou contra o sistema, ou contra o indivíduo. Esse conflito rende manchetes, mas não explica o mundo.
O sistema não é um ente abstrato separado das pessoas. Ele é o reflexo organizado de comportamentos previsíveis. O indivíduo, por sua vez, não é um joguete sem escolha, mas também não é soberano absoluto.
A conciliação está aí.
O fim de ano mostra isso com clareza. Pessoas celebram, consomem, aliviam tensões. O sistema se adapta, antecipa, oferece instrumentos. Janeiro chega e reorganiza o fluxo. Nada disso é erro. É funcionamento.
O problema começa quando se perde a consciência desse funcionamento.
O século que se decide no intervalo
O século XXI não está sendo decidido em grandes gestos simbólicos. Está sendo decidido nos intervalos. Entre um mês e outro. Entre uma exceção e a rotina. Entre a promessa e o ajuste.
É ali que padrões se formam.
O século XXI não será decidido por um único voto nem por um único discurso.
Ele será decidido pelo acúmulo silencioso das escolhas comuns.
As urnas continuam sendo o começo.
Mas é no cotidiano que o futuro cria raízes.
Lizandro Rosberg
Analista independente de tecnologia, ciência e transformações civilizatórias. Graduado na Estácio de Sá. Escreve sobre inteligência artificial, ciência, história aplicada, futuro do trabalho e o impacto real da tecnologia na vida humana. Seu foco é traduzir mudanças complexas em compreensão prática.
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