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O dia ainda estava começando quando subi até o ponto mais alto do terreno. Não era pressa. Era hábito. Daqui, o céu não compete com prédios nem com outdoors. Ele simplesmente existe. Azul, amplo, quase constrangedor de tão honesto. Enquanto o café esfriava na xícara, vi pontos cruzarem o horizonte, um atrás do outro, em silêncio absoluto. Não estrelas. Movimento demais para isso.
Naquele instante não pensei em economia, nem em geopolítica, nem em futuro. Pensei só que, quando eu era criança, aquilo não faria sentido nenhum. O céu era cenário, não infraestrutura. Hoje ele trabalha.
Só depois, já em outro momento banal, percebi que aquela sequência de luzes discretas estava mais conectada à minha vida diária do que muita coisa no chão. A mensagem que chegou sem atraso. O mapa que carregou instantaneamente. A noção estranha de que o mundo ficou menor sem que ninguém anunciasse isso em voz alta.
Satélites de órbita baixa, conhecidos como LEO, operam a altitudes que variam, em média, entre 500 e 2.000 quilômetros acima da Terra. É uma diferença brutal em relação aos satélites geoestacionários tradicionais, posicionados a cerca de 36 mil quilômetros. Essa distância menor reduz drasticamente a latência, o tempo que um sinal leva para ir e voltar.
Esse ponto é dado, não opinião.
Aqui minha análise:
Quando a conectividade deixa de depender exclusivamente de cabos, torres e obras físicas caras, o custo marginal de incluir novas regiões cai. Não a zero, claro. Mas o suficiente para alterar decisões econômicas. Povoados pequenos passam a existir no mapa produtivo. Atividades antes concentradas em capitais começam a se espalhar. Não por idealismo, mas por eficiência.
É aqui que o silêncio brasileiro dos anos 1990 e 2000 pesa.
O Brasil teve, durante décadas, ambições espaciais legítimas. Centros de pesquisa, programas de foguetes, acordos internacionais. Mas perdeu algo essencial: continuidade estratégica. Mudanças políticas sucessivas, cortes orçamentários e ausência de uma visão de longo prazo transformaram o setor espacial em um projeto sempre recomeçado, nunca consolidado. Enquanto isso, o mundo privado avançava.
Elon Musk não criou a demanda por conectividade global. Ela já existia. O que ele fez foi enxergar que ninguém estava ocupando aquele espaço com escala, cadência e obsessão operacional suficientes. A SpaceX reduziu drasticamente o custo de lançamento por quilo em órbita, algo documentado por análises da NASA e da própria Agência Espacial Europeia ao longo da década de 2010. Com isso, constelações gigantes deixaram de ser ficção científica e viraram planilha.
A Starlink, braço de conectividade da empresa, lançou milhares de satélites em poucos anos. Em 2024, já era a maior constelação LEO da história, segundo dados compilados pela União Internacional de Telecomunicações e por relatórios independentes do setor aeroespacial. Não houve mágica. Houve execução.
Opinião pessoal, assumida como tal: o Brasil não “perdeu” para Elon Musk. Ele simplesmente não estava jogando essa partida quando ela começou de verdade.
Ainda assim, dizer que o jogo acabou seria preguiça intelectual.
Dados verificados pela Reuters em 2024 mostram que menos de 1% das conexões brasileiras utilizam internet via satélite. A espinha dorsal do país continua sendo fibra óptica, cabos submarinos e redes móveis. Isso desmonta dois mitos ao mesmo tempo: o de dependência absoluta e o de irrelevância. Satélite não substitui tudo. Mas complementa onde nada mais chega bem.
E é justamente aí que mora a oportunidade econômica.
O Brasil ainda pode capturar valor nessa cadeia de várias formas. Não fabricando constelações inteiras do zero, o que exigiria décadas e recursos colossais, mas integrando-se de forma inteligente: desenvolvimento de software de controle, estações terrestres, serviços especializados para o agronegócio, monitoramento ambiental, conectividade para escolas e postos de saúde em regiões remotas, além de regulação de espectro e dados que favoreça concorrência e soberania digital.

Não é discurso desenvolvimentista. É pragmatismo.
Relatórios do Banco Mundial mostram que regiões com aumento consistente de conectividade tendem a apresentar ganhos de produtividade e inclusão econômica no médio prazo, desde que acompanhados de capacitação local. Tecnologia sozinha não faz milagre. Mas sem ela, o milagre definitivamente não acontece.
Portugal, por exemplo, já trata conectividade via satélite como ferramenta de coesão territorial. Documentos da Comissão Europeia, publicados a partir de 2022, apontam o uso de constelações LEO para garantir redundância de rede em ilhas e regiões rurais, reduzindo isolamento econômico e vulnerabilidade a falhas de infraestrutura.
O Uruguai, com seu histórico de políticas digitais consistentes, pode usar esse tipo de tecnologia para integrar ainda mais o interior produtivo ao setor de serviços, educação online e exportação de conhecimento. Não para substituir redes existentes, mas para eliminar pontos cegos.
A Argentina enfrenta um desafio mais amplo: território vasto, densidade desigual e limitações macroeconômicas. Ainda assim, a conectividade via satélite aparece em estudos do próprio governo argentino como alternativa para integrar regiões patagônicas e áreas rurais profundas, onde a infraestrutura tradicional não se paga.
O Paraguai talvez seja o caso mais subestimado. Com grande parte da população fora dos grandes centros, a conectividade pode acelerar educação, pequenos negócios e integração regional. Não por caridade tecnológica, mas porque mercados novos surgem quando o custo de entrada cai.
Nada disso garante sucesso automático. Dependência excessiva de fornecedores externos, riscos à soberania de dados e concentração de poder são problemas reais, discutidos pela OECD e pela União Internacional de Telecomunicações em relatórios recentes. Ignorá-los seria ingenuidade. Mas fugir deles também não resolve.
Enquanto isso, os satélites continuam passando, indiferentes a debates ideológicos. Trabalham. Cruzam o céu. Entregam pacotes de dados. E lembram, de forma quase irônica, que o futuro raramente espera quem fica parado discutindo se ele é desejável.
Talvez o ponto não seja mirar as estrelas como promessa. Mas reconhecer, com algum atraso, que elas já viraram infraestrutura.
E ainda dá tempo de aprender a usá-las com inteligência.
Se, ao olhar para o céu e perceber que ele já virou infraestrutura, você sentiu uma fagulha de curiosidade sobre como viver e pensar no século que já chegou sem alarde, pode ser que tenha sentido falta de um fio condutor mais pessoal nessa conversa.
O ebook “O Futuro Não Começa Depois: Como viver bem no século certo com ajuda da IA” oferece exatamente isso: não é um manual técnico nem mais um texto genérico de motivação. É um ensaio prático e humano sobre como aprender, trabalhar e decidir melhor em um tempo em que tecnologia e vida cotidiana se entrelaçam de um jeito cada vez mais real e inevitável com a inteligência artificial como ferramenta de pensamento, não como promessa mágica. Hotmart

Se a ideia do futuro como algo distante já deixou de fazer sentido para você, esse livro pode ser um convite para pensar melhor agora — com clareza, critério e sem hype vazio.
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Lizandro Rosberg
Analista independente de tecnologia, ciência e transformações civilizatórias. Graduado na Estácio de Sá. Escreve sobre inteligência artificial, ciência, história aplicada, futuro do trabalho e o impacto real da tecnologia na vida humana. Seu foco é traduzir mudanças complexas em compreensão prática, sem hype.
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21st Century Economy | Artificial Intelligence | Future of Work | Future of Work & Automation | Life Strategy
The World Is Too Old to Run on Yesterday’s Assumptions
Modern societies are aging faster than their institutions, cities, and care systems were designed to handle. Population aging is no longer a forecast. It is a present condition. Fertility rates across developed economies remain structurally below replacement, while life expectancy continues to rise. More people stay in the system for longer, and fewer enter it to sustain what that system demands. This is not a moral debate. It is arithmetic.
The text dismantles the idea that declining birth rates can be reversed through incentives alone. Children have ceased to be a default continuation of life and have become high-risk projects, requiring time, stability, and energy. At the same time, large cities have grown expensive, regulated, and hostile to family formation. Housing costs, long commutes, and constant friction quietly discourage long-term planning. Fertility declines not because people reject families, but because the environment makes them fragile bets.
Longevity adds a second layer of tension. Medical and technological progress has extended human life by decades, but social structures have not adapted accordingly. Families are smaller, communities weaker, and informal care networks thinner. Care, once distributed among many, now concentrates on a few, often exhausted individuals. As demand rises and supply stagnates, eldercare becomes a systemic bottleneck.
At this point, the article reframes technology. Automation, AI, and robotics are not replacing human care. They are filling gaps left by demographic reality. Safety automation, assisted living systems, and care-support technologies emerge as infrastructure, not luxury. The comparison between regions is telling. China treats automation as capacity planning, scaling solutions pragmatically under demographic pressure. Europe, despite facing even sharper aging trends, often responds with moral discourse and procedural delay. The United States sits between these poles, still assuming it has time.
The article closes without apocalypse. It argues for early, practical adaptation. Designing homes and cities that reduce risk. Introducing assistive technology before crisis. Treating care as infrastructure rather than a private afterthought. Building redundancy not only in finances, but in human networks.
The final note is sober but constructive. The world did not become colder. It became older. And older societies need smarter designs. Less nostalgia. More alignment. In that sense, adapting early is not pessimism. It is a form of responsibility, and perhaps the most realistic kind of optimism available.
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